BIAL SEGUNDO BIAL
Eu me tornei um profissional de difícil utilização na Globo. O que eu sou? Jornalista, repórter, apresentador de telejornal? Ou eu sou do entretenimento, do Big Brother? Eu sou as duas coisas, virei um radical livre dentro da Globo. E é difícil para a própria casa responder: o que vai fazer com o Bial? Por enquanto tem o Big Brother, que está ótimo, maravilhoso.
JORNALISMO CARETA
Você vê a BBC? Os repórteres da BBC conversam com os âncoras. A própria televisão americana. O nosso telejornalismo é careta na maior parte dos casos. Gosto muito do “Bom Dia Brasil”. Tem o tom certo. Informal e muito informativo.
MÁQUINA DE GERAR DINHEIRO
Segundo ouço, no mínimo, vai até o Big Brother 12. E tem anunciante querendo anunciar até no décimo-quinto. É uma loucura. O Big Brother é uma máquina inacreditável de gerar a engrenagem de círculos virtuosos do capitalismo. Tudo vende tudo e uma coisa vende a outra. As almofadas, os edredons, cada objeto da casa, a Globo.com, que durante o ano ocupa uma modesta posição no ranking da internet, nos três meses do programa dispara.
VISÃO
O Big Brother estreou, estava há uma semana no ar na Holanda, debaixo de porrada, como aconteceu em todos os lugares, e o John de Mol foi para o mercado de Cannes. Aquele cara que nunca acordou antes das 2 da tarde, às 10 da manhã num estande em Cannes. Aí vem o cara da Parsons, a maior holding de entretenimento do mundo, e ofereceu para ele US$ 3 bilhões pela produtora dele. E do outro lado, havia uma fila de produtores executivos querendo comprar o formato. Ele foi para a fila de produtores executivos – e ganhou muito mais. Isso na primeira semana do programa. É um empreendedor mesmo.
SUCESSO NO BRASIL
Só aqui a líder (Globo) comprou o formato. Eles gostam de vender para a segunda maior emissora. Por isso, toda a negociação original foi com o SBT, mas o SBT roeu a corda e fez “Casa dos Artistas”, que foi um estrondo, mas paupérrimo perto da nossa estrutura tecnológica. Isso aqui é uma façanha tecnológica e artística.
CONHECIMENTO PRÉVIO
A internet é incontrolável. Houve um site de relacionamento, onde se fizeram as inscrições para o BBB, chamado 8p, onde as pessoas se conheceram. A Josi conheceu o Ton. O Max e a Francine falaram lá dentro da casa que conversaram durante três horas depois de selecionados. Isso infringe as regras.
VOTAÇÃO
Acompanho desde o primeiro momento. É muito raro a tendência que abre a votação mudar. Isso aconteceu uma vez.
DEFESA DA EDIÇÃO
edição é feita com muito rigor. Não protege ninguém. A gente é superpreocupado com o equilíbrio. Mas quem se destaca, se destaca. A gente conta as histórias que estão acontecendo na casa. E o que confirma isso são as minhas entradas ao vivo com eles. Se aquilo que o VT (a parte editada) mostrou é uma fabricação, não vai ter repercussão com eles. E sempre tem.
DIÁLOGO COM O POVO
Eu tinha uma certa popularidade como repórter. Hoje eu falo com gente que eu nunca tinha falado na vida. O povão mesmo. O pessoal que o Lula fala, sabe? Estou falando com essa gente. É incrível isso. É maravilhoso. O Vinicius Valverde (repórter que faz reportagens sobre o programa) me contou que veio uma mulher negra, desdentada e disse: “Fala pro Bial que eu agradeço muito a ele. Ele vem até nós e fala com a gente”.
TV POPULAR
Estamos fazendo televisão popular. Eu penso na periferia de São Paulo. Mas, como diz Joãozinho Trinta, o povo adora luxo, se sentir prestigiado.
AUDIÊNCIA EM QUEDA
Era previsível. Os números desse ano, porém, têm que ser vistos no contexto dos números de toda a programação. A tevê aberta teve uma fuga de espectadores muito grande. E a própria Globo, nos últimos quatro anos, perdeu um número significativo de pontos. Nós estamos dando de Ibope um ponto a menos que a novela (“Caminho das Índias”), às vezes a mesma coisa, uma hora mais tarde. Esse é o parâmetro.
REAÇÃO À QUEDA
No Big Brother 9 estamos usando todos os recursos possíveis para sacudir e quebrar o script que as pessoas já conhecem. No 10, a gente vai ter que reinventar o formato. Já é incrível, com nove edições, manter os índices de audiências que temos. O único no mundo. Não tem nada parecido.
RENTABILIDADE
Este programa está batendo todos os recordes de faturamento. Os blocos de comerciais da Globo começam e terminam com chamadas de programas da emissora. Várias vezes, no Big Brother, não têm essa chamada – vendem aqueles 30 segundos também. Vende tudo. Tem fila para daqui a não sei quantas edições. É um merchandising matador. Você faz ao gosto do freguês.
SEXO NO BBB
Essa edição está adulta. Aumentou a média de idade. Ralf e Milena fazem sexo com regularidade. Quem tem pay per view acompanha. A câmera não fica muito tempo neles não por pudor, mas porque é até chato. É um edredon com uns barulhos.
PÚBLICO INFANTIL
Na tevê aberta temos que fazer uma edição mais cuidadosa. As crianças adoram o programa.
EXALTAÇÃO DA VULGARIDADE
Faço um exercício de imaginação: botar 12 acadêmicos juntos na casa. Depois de duas horas dentro da casa eles vão estar falando de sexo, coco, xixi, e não vão estar discutindo Kant. É claro que quando surge uma pessoa inteligente, o programa fica mais interessante. Mas essa pessoa inteligente não é interessante pelo que ela fala, mas pela maneira que ela age.
CANDIDATOS INTELIGENTES
Eu me encanto com uma inteligência em especial. Acho que o Max é inteligente, acho que o Flavio é inteligente e acho que a Priscila tem uma inteligência intuitiva… Isso é o que mais me comove no BBB: pessoas que entram no programa e, de repente, se transformam, descobrem que não são quem achavam que eram.
PRISCILA
Você olha para ela… No botequim, que é meu instituto de pesquisa de opinião, adoram ela. Ela é linda de rosto e está se revelando. Tem presença de espírito, pensa rápido. É surpreendente…
RETRATO ASSUSTADOR DO BRASIL
“Exaltação” eu acho uma palavra pejorativa. Acho que existe vulgaridade, sim. É um programa que necessita de gente exibicionista e estimula voyeurismo. Já tem uma coisa aí que, até dez anos, era considerado perversão. Então, não é exaltação (da vulgaridade), é o nosso conteúdo. E é também, muitas vezes, um retrato fiel da educação brasileira e da juventude brasileira. As pessoas não sabem nada!!! Nada!!! Nada!!! Uma ignorância… O Max, que é o inteligente, que gosta de ler na casa, ele lê Paulo Coelho. Aliás, como milhões de pessoas no mundo. É um retrato assustador, às vezes.
CULTURA x ENTRETENIMENTO
Acho que em televisão você aprende vendo até anúncio de Gelol, aprende vendo qualquer porcaria. Não acredito que se ensine, acredito que a gente aprende. E, comparando Big Brother à tevê popular vigente, é muito melhor. Vejo os outros programas e são todos muito ruins. Acho o Big Brother mais bem feito, mais caprichado, melhores profissionais…
FUNÇÃO DO BBB
Não acho que a função do programa é educativa e cultural. É entretenimento. Mas um bom entretenimento pode abrir canais. Se divertir nunca é perda de tempo. É chato ficar nessa posição defensiva. Mas eu visto a camisa mesmo.
OURO DE TOLO
É algo muito chocante mesmo. Nas primeiras edições, eu não entendia nada daquilo. Na primeira edição, então, que era “O Império contra-ataca”, porque queríamos ferrar a “Casa dos Artistas”, todo mundo vivia e dormia no Projac, fiquei chocado. Tem aspectos chocantes. Mas com o tempo comecei ganhar olhos mais compassivos, ver esses caras com mais compaixão. Tem um poema do Paulo Henriques Brito, chamado “Biodiversidade”, fala do poeta como uma tartaruga. Esses caras, de certa maneira, acham que através do Big Brother vão poder achar uma nova identidade, de ex-BBB. Eu não invejaria, mas é legítimo. Agora, é ouro de tolo? É ouro de tolo. Mas como programa de televisão, é muito legal.
FASE FINAL DO PROGRAMA
Acho que vamos entrar num ritmo mais clássico de BBB. Ainda vai ter um paredão surpresa numa quinta-feira, mas acho que agora vai entrar em outro ritmo. Já pegou fogo.
VOTO POR TELEFONE
O voto do telefone tem mais peso. Na internet você vota quantas vezes você quiser. É de graça e é usada por um determinado tipo de profissional. Madrugada adentro, qualquer um que trabalha num terminal de computador, em vez de jogar paciência, fica lá votando. Enquanto o cara que trabalha na enxada ou outra atividade não fica. Tem uma ponderação para representar a maioria.
ANDRE E MAÍRA
No caso da entrada deles, considere que havia onze torcidas votando para que os dois não entrassem. E as torcidas são organizadíssimas. As prefeituras disponibilizam lan-houses… O (senador) Mão Santa fez discurso no Senado, no ano passado, pedindo votos para a Gyselle. O PC do B chamou a Fanny para se filiar. Mas os ex-BBB que foram candidatos a vereador se ferraram. O brasileiro já está mais politizado um pouquinho do que isso.
TORCIDA
Todo mundo na equipe que faz o programa tem os seus preferidos. Às vezes a gente torce: “poxa, esse sujeito não podia ser eliminado”. Por nós, o Cowboy ficava. Mas, depois de nove edições (tendo favoritos), a gente aprendeu: não acontece nada com o jogo se sai um dos nossos preferidos.
BIAL E OS CANDIDATOS
Faço questão de não participar da seleção. Não falo com eles fora do ar. Minha relação é exclusivamente midiatizada. Essa turma é muito boa ao vivo, muito solta. Tem sempre aquele que cresce, que vem com uma resposta mais espirituosa. Eu tento equilibrar, falar com todos, lembrar com quem eu falei no programa anterior, para não repetir. Agora, uma vez que começa a conversa…
O SILÊNCIO É DE OURO
No BBB passado, a Gyselle adotou essa tática suicida e quase ganhou. Ficava dormindo, não falava com ninguém. Perdeu por décimos. Dormindo, chegou à final.
ENCENAÇÃO NO BBB
Rodrigo Dourado, o editor, edita sem roteiro. Na quinta-feira, ele me disse: “não tem nada de verdade aqui”. O conteúdo que a gente procura é o autêntico. “Eles estão encenando demais”, ele disse. A gente tira. Quando a gente viu, o programa ia ficar curto. Eu disse: “me dá mais tempo no ao vivo”. Temos essa alternativa nesse programa. Quando eles ficam “fakeando” (falseando) muito, a gente simplesmente não põe no ar. E no ao vivo não tem “fake”. É de verdade mesmo.
ENGANAÇÃO
Alguns jogam para as câmeras. Falam sozinhos. Você percebe que às vezes estão tentando enganar. Político se dá mal com isso. A televisão é lambrosiana nesse sentido. Você olha a cara do político, não importa o que ele está falando, e diz: “não compro esse cara”.
GAYS NA CASA
Acho que tem. Você vê os blocos (de carnaval). Todo mundo se beijando na boca. Essa geração brinca… Teve dois atos falhos do Max – ele falou “isso aconteceu com o meu ex-namo… ex-namoro”. E depois, numa segunda vez, ele falou “isso aconteceu com meu ex… um antigo relacionamento”. Não sei. Sabe a tatuagem que ele esconde embaixo daquele “12”. O Piu-piu, do desenho animado. Ele deve ter tatuado muito jovem… Não sei. O Max é um “muderno”, digamos assim. E o Flavio falou com todas as letras, na primeira festa, de porre, para a Milena: “eu já tive um namorado chamado Max”. Mas eu acho que isso não é mais um “assunto”.
SELEÇÃO
Tem essas cotas, é claro. Negro, por exemplo, não damos sorte. Nesta edição, foi selecionado um carioca, negro, PhD, supercabeça (Milton), quando deram a notícia que ele tinha sido reprovado no exame médico, ele quase comemorou. O cara percebe a roubada em que está entrando… A pessoa que se dispõe a entrar no Big Brother não pode ter nada a perder. Se ela tiver alguma coisa a perder, ela não entra. Porque ela vai perder. Você tem que ser muito exibicionista para querer participar.
BONINHO
O núcleo duro da edição é formado pelo Rodrigo Dourado, que pilota a máquina. A Mila Abraão, a Leila Maia, eu e o Boninho. E tem o LP Simonetti, mas ele não cuida da edição. É esse colegiado. O Boninho é engraçado porque ele faz questão de manter a fama de mau, mas é muito democrático. Toma a decisão depois de ouvir todo mundo. E se for contra o que ele acha, nem que ele fique puto, ele diz: “Tá bom. Vocês querem assim, vai assim”.
MADRUGADA
Depois do programa, às vezes, a gente vai no Porcão (churrascaria). Eu fico no Porção me coçando para ir para casa assistir. Quando vou dormir cedo, já são 3, 4 da manhã.
CABEÇA
Eu me sinto estimulado a entender a cabeça deles, lê-los… Converso com meu psicanalista muito sobre eles, na tentativa de compreendê-los… Por exemplo, quando criticaram o Quarto Branco (um quarto sem janelas, e sem comunicação, no qual três candidatos, Ralf, Ton e Leo, ficaram confinados, até a desistência de um deles). Perguntei ao dr. Francisco (Daudt da Veiga): “Quarto Branco é tortura?” Ele não assiste o programa, mas ouve a repercussão nos comentários de outros pacientes. Ele me chamou a atenção para a importância do discurso que eu faço na hora da eliminação. Estou falando para 45 milhões de pessoas, não para aqueles 12 que estão lá.
FAVORITOS
Está cedo para dizer quem vai ganhar. O Max é favorito desde o início. Ele capturou o imaginário das crianças e adolescentes. O Rafinha (BBB8) foi assim. Também acho que estão no páreo a Francine, a Naiá, a Priscila, o Ralf e a Ana Carolina (a entrevista foi realizada antes da definição do paredão desta terça-feira, que opõe Ralf e Ana). Milena, Mirla (foi eliminada domingo) e Flavio não vejo, neste momento.
REJEIÇÃO
Max e Ana Carolina têm índices de popularidade tão grandes quanto índices de rejeição. Nesse BBB, os candidatos não são informados sobre os índices que tiveram nas votações. Pedimos ao André e à Maíra, quando entraram, para não falar sobre isso com eles.
Fonte:Último Segundo no Portal IG
Postado por Cleberson